novembro 15, 2009

Dante Mendonça


O apagão de Itaipu pode trazer alguma vantagem extra para Foz do Iguaçu.

Para o gáudio do segundo destino turístico do Brasil - só perde para a Cidade Maravilhosa -, quem sabe aqueles que ainda não conhecem o gigantismo de nossas águas agora se animem a ver de perto a parede onde o Brasil está ligado na tomada.
Até o apagão desta semana, se pensava que apenas “São Paulo não podia parar”. Se a locomotiva andasse, os vagões vinham atrás. Ledo (Ivo) engano: A Usina de Itaipu é que não pode parar. “Oh, raios! Então não foi São Pedro que nos deixou comendo pizza à luz de velas? “, se perguntam agora os senhores da Avenida Paulista. Especialmente aqueles infelizes que ficaram horas trancados no elevador.
Precisou de um breu quase do tamanho do Brasil para ficar claro que a luz da sala não nasce apenas no poste da esquina. Também nasce da magia de Itaipu, cantava o poeta Mário Quintana.
***

Como um riso trancado / o rio explode numa gargalhada / e luz, calor, energia! / Parece até mágica / do homem da Usina / (E, se duvidares, muito daqui a pouco sairão voando / todas as gravatas borboletas...)***


A magia de Itaipu, que serviu de inspiração ao poema, também levou luz à ópera.
Nos anos 1980, acompanhado do diretor Gerald Thomas e da cenógrafa Daniela Thomas (filha de Ziraldo), o músico Philip Glass foi a Foz do Iguaçu e ficou pasmo com aquele ruído ao longe. Glass apurou os ouvidos, fechou os olhos por um instante e foi conhecer aquela sinfonia do Rio Paraná.Eram quase 18h quando a trupe entrou na usina, vindos diretamente de Miami para conhecer Itaipu. Pelo olhar, testemunharam os anfitriões, os três artistas (apesar de já terem aterrissado há um bom tempo em Foz) ainda estavam viajando... e viajando...Depois de ver e ouvir a parte “viva” da usina, as proporções fascinaram os visitantes, que definiram o cenário como “jamesbondiano”, um local próprio para encenar uma história de amor.
***
Um mês depois, a Folha de S. Paulo publicou em letras gordas que Philip Glass preparava ópera sobre uma história de amor na Usina de Itaipu.
“O CD com a ópera de Itaipu foi lançado em 1980, com a Atlanta Simphony Oschestra and Chorus e regência de Robert Shaw, pelo selo Classical da gravadora Sony. No encarte do CD, escrito em inglês, alemão, francês e italiano, a visita a Itaipu é documentada. O folheto lembra que, ao percorrer os imensos dutos a conhecer as gigantescas turbinas, Glass ficou atônito diante daquela demonstração da engenhosidade humana e sua capacidade de transformar a natureza, comparando o empreendimento, em audácia e inventividade, à construção das pirâmides do Egito. Ele soube imediatamente que a ópera seria inspirada na barragem de Itaipu: “Eu olhei e disse: já sei como será o trecho (da Ópera)’”. O texto prossegue, afirmando que, com a música montada na cabeça, Glass começou a procurar por um texto. “Seu amigo Marcelo Tassara trouxe aquilo que ele considerou a solução perfeita, uma criação mitológica dos índios guarani, para quem o Rio Paraná é o lugar onde a música nasceu”.
***
Hoje com 71 anos, Philip Glass só não sabia de uma outra história de amor de Itaipu. Na construção da usina, com exceção feita às famílias já constituídas de engenheiros e técnicos que residiam nas vilas, a Binacional não permitia o namoro entre seus funcionários na obra. Foi quando um jovem engenheiro apaixonou-se por uma das bibliotecárias. Com a paixão correspondida, foram vistos pelo canteiro de mãos dadas. Foi um escândalo. O assunto chegou à diretoria, que decidiu pela demissão do rapaz. O encarregado de pessoal simplesmente pegou uma tesoura e cortou a ponta do seu crachá. Era o ritual que o desligava de Itaipu.
***
Poucos sabem, esse talvez tenha sido o primeiro apagão de Itaipu.

Dante Mendonça (13/11/2009) O Estado do Paraná.

2 comentários:

expressodalinha disse...

LUX FECIT!

Lina Faria disse...

É, está dificil de explicar esse apagão!

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Curitiba, Paraná, Brazil
Sou fotógrafa e curiosa. Vivo na cidade de Curitiba e gosto de olhar e documentar a relação das pessoas com os espaços em geral. Levo isso ao pé da letra, quando fotografo as ruas e sua ocupação desordenada. Também nos interiores das submoradias, longe de qualquer padrão de ordem mas com um sentido de segurança, mesmo que penduradas e vulneráveis à primeira chuva. Mas tudo isso tendo como compromisso a beleza, a harmonia. Mesmo na realidade de uma favela, resgatar a dignidade através do belo é o que me interessa. Gosto também, e muito, de design e arquitetura. Da social à contemporânea, o gosto pelo ocupar me interessa. contato: linafaria@yahoo.com.br
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