fevereiro 17, 2011







SOBRE O MIX ESTÉTICA, ÉTICA E USO DO CORAÇÃO PARA JUSTIFICAR FABRICAÇÃO DE GUERRAS E ARMAS.

Fica difícil entender, respeitar e manter culturas em tempos de globalização, não?
Reproduzo artigo de Ronaldo Eutler que fala sobre a imagem vencedora do ano do World Press Photo:

 

A imagem do ano do World Press Photo




Revista Time, 19/07/2010

   
Revista Time, 19/07/2010

 

Ronaldo Entler , no blog Iconica [domingo, 13/02/2011]

"Fiquei surpreso com a foto escolhida como “imagem do ano de 2010” pelo World Press Photo: o retrato feito pela sulafricana Jodi Bieber da jovem afegã Aisha, que teve seu nariz e orelhas decepados pelo marido, com o apoio do Taleban.
Lembro bem de quando a imagem circulou pelo mundo no ano passado depois de ser publicada na capa da revista Time. É desse tipo de cena que você olha com o estômago e só consegue responder com o silêncio.
Foi uma experiência forte, sem dúvida, mas em momento algum senti que estava diante de uma grande fotografia. Ela é boa talvez no sentido de demandar credibilidade e de dar expressão à gravidade do fato. Mas nada muito além disso.


Vamos então refletir um pouco mais sobre essa imagem, sobre sua publicação pela Time, sobre o prêmio recebido. Não tenho clareza do que penso. Acreditem, vou tentar entender enquanto escrevo.
- A imagem expõe o resultado da violência sem nenhum pudor. Sensacionalismo? A imagem é sem dúvida “apelativa”, no duplo sentido do termo: é um clamor e uma superexposição. Difícil saber se uma coisa justifica a outra, isto é, se a necessidade de trazer algo à nossa consciência justifica a carga excessiva colocada sobre nosso olhar. Mas essas duas coisas estão lá, tanto pior se fosse apenas a segunda. Como assume o editor, “nossa imagem de capa desta semana é forte, impactante e perturbadora”. Não é só isso. Sem nenhuma ingenuidade, eles estão bancando ali uma quase propaganda (de guerra): “o que acontece se deixarmos o Afeganistão”, diz a chamada, referindo-se à discussão sobre o fim da intervenção política e militar dos EUA no país do oriente-médio. A imagem é a resposta.
- Não é apenas a violência que nos perturba. É sua proximidade. O Afeganistão continua longe e, em princípio, ainda estamos “diante da dor dos outros” à qual normalmente reagimos com um misto de repulsa e curiosidade. Mas, nesse caso, há algo diferente, um vínculo forte com o ocidente. Não só porque os EUA estão no Afegaistão (esse é o tema da reportagem da Time), ou porque a garota já estava sob a proteção das tropas americanas, antes de seguir para os EUA. A questão é que temos ali uma beleza que também é a nossa, uma mulher que poderia ter qualquer nacionalidade, um rosto que, se não estivesse mutilado, não apenas despertaria nossa compaixão, mas também nos seduziria. Há um potencial ocidental nesse rosto que impede sua abordagem como exótico. Diferente de pensar “pobre das mulheres daqueles homens”, é como se a violência tivesse agora atingido uma das nossas. Portanto, o próprio fato envolve uma questão de identificação com uma imagem.
- A foto parece ser pouco elaborada, um retrato numa capa como tantas outras que já vimos. Não há uma composição que se destaca, um enquadramento peculiar, um instante decisivo. No site de Jodi Bieber, há vários ensaios que demonstram melhor sua competência. Há coisas realmente boas por lá. Mas e a foto desta capa? Não podemos ser ingênuos: essa simplicidade não deixa de ser uma construção. A fotografia de aberrações (pessoas doentes, deformadas, mutiladas…) é quase um gênero histórico que possui sua própria linguagem.  Mas não é o caso. Temos ali um retrato com um leve toque publicitário: um sombreado ao fundo, um torso precisamente colocado entre a frontalidade e o perfil, um olhar de canto de olho mas que enfrenta a câmera,  um vestuário oriental soft. E claro, aquele rosto que tinha tudo para ser belo. Poderia ser a foto de uma campanha publicitaria, de um book de modelo, ou de uma personalidade qualquer que aparece em capas de revista. Nossa perturbação aumenta exatamente porque essa imagem coloca um conteúdo numa forma que parece não lhe pertencer. É uma estratégia forte e precisa que tem antecedentes: August Sanders, Diane Arbus, Joel-Peter Witkin… Acho que a Time teve consciência desse deslocamento, de que mostravam alguém que passou por uma experiência limite de violência do mesmo modo que mostrariam o ganhador do Oscar ou o investidor do ano. Mas duvido um pouco de que os jurados do prêmio tenham passado por questões dessa ordem. Por sua vez, a fotógrafa diz algo que quase segue nessa direção, mas de um modo mais poético: “quis mostrar sua beleza, não quis mostrá-la como uma vítima”. Mas não podemos ser hipócritas: aos nossos olhos, sua beleza apenas agrava sua condição de vítima, escancara aquilo que foi perdido.
- Mesmo que haja grandes trabalhos premiados, sinto que o World Press não se preocupa tanto com a originalidade autoral. Já vimos por lá bichinhos, paisagens, também já vimos acidentes e catástrofes, tudo isso em fotos que são, no máximo, interessantes e corretas. Isso significa que o prêmio valoriza não tanto – ou não apenas – a obra, mas a beleza do fato, a importância do fato, a gravidade do fato, e a capacidade do fotógrafo de estar ali quando as coisas acontecem. É uma concepção clássica de fotojornalismo, também não é a minha preferida, mas tem lá sua legitimidade. Neste caso, não parece ser diferente: o prêmio não considera apenas a foto, mas também a importância do contexto que ela revela e do qual participa. Mas, mesmo os bichinhos e as catástrofes costumam aparecer no World Press com composições mais sofisticadas que essa.  Normalmente, o público ainda diria: “nossa, que foto!”. Aqui, seria: “nossa, que coisa, que desgraça, que maldade!” Talvez, simplesmente: nossa!”.  Os parâmetros não parecem estéticos, imagino que um dos principais ingredientes dessa escolha seja a comoção. Vale explicar. Por comoção, podemos entender um “movimento coletivo”, o desejo de considerar o afeto do público como um componente da comunicação de massa (como fazem explicitamente os roteiristas de novela quando conduzem a trama em função de uma vontade média). Mas claro, essa comoção não é fútil, ao contrário, considera a importância do tema, é politizada no sentido de destacar o papel que a fotografia teve para esse público na compreensão de uma realidade e na afirmação de uma causa. De todo modo, se esta hipótese faz sentido, isso significa trocar um papel “formador” que um evento cultural poderia ter por um papel simplesmente “consagrador”.
Por um instante, eu mesmo achei que poderia chegar à conclusão de que o prêmio foi justo ou injusto. Mas não é preciso trazer o debate para o campo moral. Se estranhamos a escolha, temos que tentar tirar um sentido disso. Construir um olhar crítico sobre as imagens é muito mais produtivo do que reivindicar uma pretensa objetividade das fotografias, das exposições, dos concursos."





Abaixo, exemplifico, a grosso modo, a força do olhar de uma mulher, seja ela dentro de um contexto fictício de uma gioconda, ou 'retirada' de seu entorno natural, virando capa de revista, num 'plano americano'. Pulando pro lado de cá de sua cultura. Tirando o que o chador esconde.

Eu, como o craque Ronaldo Entler, me confundo de como uma imagem pode servir a tantos objetivos. De nefastos a justiceiros. Isso me tira o sono.





AS MONALISAS DA FOTOGRAFIA




             Revista Time, 19/07/2010                   
      Da Vinci                                           foto Jodi Bieber                                         Steve McCurry







4 comentários:

João Menéres disse...

Há dias (logo a seguir a ter conhecimento de MAIS este prémio) exprimi num blogue (confesso que já não sei em qual) a minha opinião.
Foi em não mais de3 ou 4 linhas, como é óbvio.
Mas o que escrevi encaixa por inteiro no que
RONALDO EUTLER aqui patenteia num artigo muito bem elaborado.

Obrigado, LINA, por mo dares a conhecer.

Um beijo.

Lina Faria disse...

Gentil amigo João,
obrigada pela frequente visita e pertinentes comentários.
Estou tentando, ainda sem sucesso , postar no Grifo.
De qualquer forma, mando minha sugestão por e-mail. É claro, sem pretensão de concorrer, só pelo agradável exercício.
bjs!

Ana Barrios disse...

O assunto dá o que pensar...

Ana Barrios disse...

O assunto dá o que pensar...

Quem sou eu

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Curitiba, Paraná, Brazil
Sou fotógrafa e curiosa. Vivo na cidade de Curitiba e gosto de olhar e documentar a relação das pessoas com os espaços em geral. Levo isso ao pé da letra, quando fotografo as ruas e sua ocupação desordenada. Também nos interiores das submoradias, longe de qualquer padrão de ordem mas com um sentido de segurança, mesmo que penduradas e vulneráveis à primeira chuva. Mas tudo isso tendo como compromisso a beleza, a harmonia. Mesmo na realidade de uma favela, resgatar a dignidade através do belo é o que me interessa. Gosto também, e muito, de design e arquitetura. Da social à contemporânea, o gosto pelo ocupar me interessa. contato: linafaria@yahoo.com.br
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