agosto 23, 2011








HISTÓRIA E MEMÓRIA DE UMA CIDADE
 
 
 
 


Desde ontem participo de um curso, promovido pela Caixa Cultural, sobre a abordagem do tema Cidade & Memória.
Já na primeira aula, com público docente e discente gabaritado de mestre, doutores, urbanistas, antropólogos, ativistas sociais, artistas e que tais, deu para sentir que o debate seguira com calorosas polêmicas entre os participantes, provocados pelos itens que se levantam da teoria em contraponto às vivências de cada um.

Que a História oficial é apenas uma face das verdades que os fatos geram ao serem interpretados segundo o interesse do observador e de seu grupo, é sabido desde sempre.
Se a História, quando com agá minúsculo, vira Memória, fica para mim mais uma vez sacramentado que, como a Bíblia, esse caleidoscópio é, na verdade, o grande jogo da Vida.
O jogo da Verdade. Verdade de cada um.

Porque lemos, vemos filmes, refletimos sobre obras de arte? Pra conhecermos o imaginário, a roupagem de verdades segundo um cara que tem pensamentos ao qual nos identificamos.

Porque às vezes assisto ou ouço algo que acho horrível mas que faz sucesso?
Para entender o que seduz o coletivo.
Leio os jornais dominicais, já prontos na quinta, para saber o que chega ao cidadão comum.

Então a História é feita sempre induzida pelo poder vigente? Pelos vencedores?
Pelo menos quando a comunicação era precária e o acesso à escrita era restrito à uma elite, sim.

Mas isso é tudo sabido. O que me interessa é tentar perceber a leitura acadêmica, a nomeclatura que a Academia juramentou. Mas só pra saber.

Quando o bloco for a leitura da cidade de Curitiba, o curso deverá ser polémico como ontem o foi.

Ao serem abordados os pertencimentos culturais de uma cidade e as várias interpretações que provocam os monumentos e equipamentos nela instalados ao longo dos anos, um participante, certamente que não vive há muito por aqui, citou um absurdo, como verdade histórica. Disse ele ter um prefeito curitibano feito uma homenagem aos negros, colocando uma figura negra, mas descalça e serviçal.
Todos os curitibanos que conhecem um pouco da história da cidade e, por muitas vezes ajudaram a faze-la, tiveram uma reação indignada à interpretação do participante.
Eu, na hora, depois de comentar minha indignação com a historiadora Maria Luiza Baracho, fui ao moço, mas já estava lá Didonet Thomas, uma investigadora da obra do escultor Erbo Stenzel, com toda a legitimidade de dizer não, a negra que está no Paço da Liberdade é na verdade uma Memória Individual de Stenzel.
Em sua temporada de estudos no Rio, encantara-se com a bela negra que passava com a lata na cabeça, rumo ao morro.
Na verdade a escultura é uma cronica visual de um alemão que vê na paisagem urbana do Rio figura tão leve, tão livre, tão digna, e, sem coragem de enfrentar a vestuta sociedade curitibana, a trás para casa e a eterniza em bronze.

Na década de noventa, quando a cidade completava 300 anos, o então prefeito Rafael Greca homenageou os escultores curitibanos,
reeditando esculturas clássicas de cada um.
João Turim e Erbo Stenzel, entre eles.

Quando o participante afirma que o prefeito quis homenagear os negros colocando uma representante num ato, segundo ele menor, denota apenas uma interpretação gerada pela impressão que a cidade em seu contexto lhe confere.
É uma impressão pessoal, mas que pode gerar argumentos que a faça convincente.

O local onde está instalada Maria Lata D'agua,
uma fonte projetada por Fernado Canalli e Rodolpho Doubeck, fica entre O Paço da Liberdade e as Arcadas do Pelourinho, edificação da gestão Rafael Greca, com projeto de Fernando Popp e Mauro Magnabosco.

Porque Arcadas do Pelourinho?
Porque quando a Praça da Matriz, a Tiradentes, tinha apenas moradias de fim de semana, quando os homens de bens e seus familiares vinham para assistir as missas, essas casas começaram a ser saqueadas por bandoleiros.
Para intimida-los, foi erigido um Pelourinho, local de punição, onde o ladrão que fosse preso seria punido sumariamente, em praça pública.
Não funcionou, segundo conta História.

Esse pequeno monolito está lá até hoje mas poucos sabem de sua existência.
Certamente, por licença poética,
as arcadas, que servem hoje como mercado de flores, ganharam esse nome para provocar o fato histórico do pequeno marco chamado Pelourinho.
Daí a instalarem a crônica tridimensional de Stenzel, seu negro amor,  na fonte do Pelourinho, é
mais que afetivo. Passa, por tênue que seja, ao processo discriminatório, sim.
Mas não do prefeito ou do arquiteto, e sim da realidade de uma época retratada no aqui e agora. 

Portanto, História, Memória, Verdade, sempre prevalecerá aquela em que empiricamente e baseadas em referência consistentes, nosso juízo eleger.




Um comentário:

claudio boczon disse...

UaU, Lina!

Gostei de ler, e ver.

beijo,

Quem sou eu

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Curitiba, Paraná, Brazil
Sou fotógrafa e curiosa. Vivo na cidade de Curitiba e gosto de olhar e documentar a relação das pessoas com os espaços em geral. Levo isso ao pé da letra, quando fotografo as ruas e sua ocupação desordenada. Também nos interiores das submoradias, longe de qualquer padrão de ordem mas com um sentido de segurança, mesmo que penduradas e vulneráveis à primeira chuva. Mas tudo isso tendo como compromisso a beleza, a harmonia. Mesmo na realidade de uma favela, resgatar a dignidade através do belo é o que me interessa. Gosto também, e muito, de design e arquitetura. Da social à contemporânea, o gosto pelo ocupar me interessa. contato: linafaria@yahoo.com.br
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