julho 24, 2010









Paulo Nozolino









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“Um Estado que não sabe lidar com homens feitos de uma só peça”





O premiado fotógrafo lusitano que vive em Paris, ganhou no começo do mês a quantia de dez mil euros da AICA, uma instituição do Ministério da Cultura português. Mas, para susto de todos, o fotógrafo contemporâneo declinou da quantia irritado pelas exigências burocráticas do órgão pagador. Alegando não se sentir obrigado a cumprir qualquer exigências por uma quantia que não solicitou, agradeceu e explicou-se com a carta aberta que transcrevo abaixo.

Elegante o ato, não?
Me faz lembrar, sempre puxando a brasa para as sardinhas curitibanas, a atitude pra lá de principesca de nossa querida Teresa Urban, jornalista que também declinou da polpuda indenização que o governo lhe ofereceu por ter sido presa e torturada nos anos de ferro da ditadura, achando que não havia preço que pagasse os equívocos e crueldade dos atos de então. E olha que a Teresa ainda vive de seu trabalho como jornalista, no sótão da casa dos pais.
Tá, tá, exagerei na comparação mas não poderia perder o gancho de contar a história da Teresa, irmã de meu grande amigo e fotógrafo João Urban.

E também, temos sim, que reverenciar pessoas de convicções e sua coragem em sustentá-las. 
Não que isso me faça achar indecente ou menor quem receba o que lhe é oferecido, nem que a rebeldia do fotógrafo lhe legitime quanto à sua situação tributária com seu país, mas esses atos têm que ser trazidos a público e refletidos. Há muita hipocrisia nisso tudo.



 ©Paulo Nozolino



PAULO NOZOLINO DEVOLVE PRÉMIO AICA/MC





COMUNICADO:

Recuso na sua totalidade o Prémio AICA/MC 2009 em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo. O Estado, representado na figura do Ministério da Cultura (DGARTES), em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o! Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas.


A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!


Na cerimónia de atribuição do Prémio foi-me entregue um envelope não com o esperado cheque de dez mil euros, como anunciado publicamente, mas sim com uma promessa de transferência bancária dessa mesma soma, assinada por Jorge Barreto Xavier, Director Geral das Artes. No dia seguinte, depois do espectáculo, das luzes e do social, recebo um e-mail exigindo-me que fornecesse, para que essa transferência fosse efectuada, certidões actualizadas da minha situação contributiva e tributária, bem como o preenchimento de uma nota de honorários, onde me aplicam a mencionada taxa de 10%, cuja existência é justificada pelo Director Geral das Artes como decorrendo de um pedido efectuado por aquela entidade à Direcção-Geral dos Impostos para emitir “um parecer no sentido de que, regra geral, o valor destes prémios fosse sujeito a IRS”.


Tomo o pedido de apresentação das certidões como uma acusação da parte do Estado de que não tenho a minha situação fiscal em dia e considero esse pedido uma atitude de má fé. A nota de honorários implica que prestei serviços à DGARTES. Não é verdade. Nunca poderia assinar tal documento.


Se tivesse sido informado do presente envenenado em que tudo isto consiste não teria aceite passar por esta charada.


Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições. Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.


Paulo Nozolino


1 de Julho de 2010




fonte: http://frenesi-livros.blogspot.com/






5 comentários:

Ciro disse...

Louváveis atitudes tanto deste Paulo, como da Teresa, que aí reportas.
Isto me faz ainda ter esperanças nesta nossa espécie humana, apesar de pequena-restrita.
Abração-Bj

Anônimo disse...

Perfeitos os dois, boa lembrança Lina!

Iara

Lina Faria disse...

Pessoas especiais existem e, o melhor, são gente como a gente. Amigas da gente, né Irinha?
beijos, queridos amigos!

Fraga disse...

Exemplar postura, devia ser regra nessas situações, que são típicas no Brasil. Clap, clap, clap! (E gracias a vc, Lina, por garimpar essa relevância.)

claudio boczon disse...

Taí, um tapa com luva de pelica que eu também gostaria de ter dado, das vezes em que fui tungado em situações parecidas...

...mas o vil metal falou mais alto.

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Curitiba, Paraná, Brazil
Sou fotógrafa e curiosa. Vivo na cidade de Curitiba e gosto de olhar e documentar a relação das pessoas com os espaços em geral. Levo isso ao pé da letra, quando fotografo as ruas e sua ocupação desordenada. Também nos interiores das submoradias, longe de qualquer padrão de ordem mas com um sentido de segurança, mesmo que penduradas e vulneráveis à primeira chuva. Mas tudo isso tendo como compromisso a beleza, a harmonia. Mesmo na realidade de uma favela, resgatar a dignidade através do belo é o que me interessa. Gosto também, e muito, de design e arquitetura. Da social à contemporânea, o gosto pelo ocupar me interessa. contato: linafaria@yahoo.com.br
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